Segundo registros, os relógios marcavam 23h 30min de uma noite clara, de mar calmo e sem nevoeiros do dia 24 de março de 1887, quando por intermédio do choque por bombordo com a proa do Vapor Pirapama, o Vapor Bahia que tinha a bordo mais de 200 pessoas, foi rapidamente a pique na altura da praia de Ponta de Pedras, litoral norte de Pernambuco, vitimando fatalmente mais da metade deste número.
Sem dúvidas uma tragédia de proporções elevadas para época, e que fora cruelmente exposta, através dos diversos corpos encontrados alguns dias após, nas praias de Carne de Vaca e Ponta de Pedras. O verdadeiro cenário da tragédia aparecia aos olhos dos moradores locais, de curiosos, e da imprensa, que cumpriria o seu papel mostrando a todos aquele horror até onde a força de seu alcance pudesse alcançar.
Pouco mais de cem anos depois, mais precisamente em um início de dezembro do ano 1991, justo no final de semana seguinte após a minha primeira viagem a Fernando de Noronha, fui convidado por, Henrique Pinheiro, meu grande amigo da pós-adolecência e principal responsável pela minha vida de aventureiro, a visitar o Naufrágio do Vapor Bahia, ainda embriagado com o brilho roxo das calorosas e belas águas daquele arquipélago, confesso que aceitei o convite sem muita empolgação, acho que até numa condição de resignado, pois deveria voltar a me conformar logo com o que tinha de possível para mergulhar, afinal de contas, se mergulhar em Noronha hoje já é algo complicado e de difícil acesso, imaginem naquela época, onde havia apenas uma operadora de mergulho monopolizando tudo.
Mas fomos lá, alugamos alguns cilindros na atualmente extinta escola de mergulho CMAR, e partimos para a praia de Ponta de Pedras com o objetivo inicial de localizarmos a casa de um pescador chamado Jorge, conhecido na região como um grande marcador de cabeços, e que segundo informações sabia exatamente a marca do naufrágio do Bahia.
Lá chegando, eu Henrique e mais dois amigos mergulhadores, encontramos rapidamente a casa, quando fomos informados que Jorge não estava lá e que provavelmente se encontraria na colônia de pescadores, ao chegarmos na colônia, recebemos a informação de que o mesmo estava na praia limpando a embarcação. Já na praia cheguei perto de um rapaz moreno, com os cabelos grandes, encaracolados e queimados pelo sol, e perguntei:
- Amigo, você sabe quem é Jorge o pescador?
Ele olhou para mim e respondeu, com uma voz roca e grave:
- Sei sim! O que é que você quer com ele?
- Estamos querendo ir para o Bahia.
- O que vocês querem lá?
- Estamos querendo mergulhar lá e disseram que ele sabe a marca e poderia nos levar.
- E leva mesmo! Eu sou o Jorge e levo vocês lá. Muito prazer em conhece-los.
Fizemos os acertos e embarcamos numa pequena traineira motorizada, mas que precisava de uma vela de jangada para aumentar sua velocidade. Logo durante o trajeto, já pude perceber que a cor da água, não fazia feio frente às águas de Noronha, o que começou a aumentar minha empolgação.
Finalmente após quase duas horas de navegação, chegamos ao ponto do naufrágio, conferida a cada instante pelas marcas de terra que Jorge com olhares rápidos, validava freqüentemente. Após o comando de jogar a poita e de suas firmes palavras: Estamos em cima das caldeiras, começamos a nos equipar. Já de cima da embarcação era possível ver uma forma escura que se estendia tanto pela proa, como pela popa da embarcação, era o Vapor Bahia que se estendia sob nós.
Fui o primeiro a cair na água, logo que pus a rosto para baixo, puder ver com extremo fascínio uma quantidade enorme de cardumes de diversas espécies, movendo-se freneticamente ao redor daquelas ferragens. Naquele momento a vontade de ver tudo aquilo de perto quase me fez esquecer o meu dupla, que ainda estava na embarcação.
Ao iniciar os 24 metros da descida, mal pude acreditar no que via, a concentração de vida era enorme e se estendia pelos mais de cem metros do naufrágio, eram cardumes de xáreus, budiões, arraias xitas, arraias mantegas, salemas, xiras, tartarugas, tudo isso tendo como plano de fundo aquelas ferragens coloridas por esponjas e corais. A cada local que passava ficava cada vez mais encantado. A visibilidade da água era absurda, as rodas propulsoras eram um show à parte, mas quando avistei a proa, imponente, após mais de cem anos sustentando ainda as duas ancoras, como se tivesse querendo mostrar ao tempo que ela era mais forte, fiquei boquiaberto, olhei de baixo para cima e avistei algumas arraias xitas que passavam por cima cortando os raios do sol com se fossem uma lâmina amolada, mas completamente inofensiva, pois ali mesmo, eles voltavam a brilhar tal qual antes, iluminando aquela obra de arte do destino com toda magnitude que aquele visual merecia.
Naquele momento, percebi claramente o poder de Deus, pois só um ser tão grandioso como Ele, seria capaz de transformar um cenário de uma tragédia, em algo tão lindo e maravilhoso como aquele, ali realmente me emocionei e lhe agradeci de joelhos, por ter me permitido ser um mergulhador e poder presenciar tudo aquilo pessoalmente.
Sai daquele mergulho modificado e extremamente encantado, me senti como se tivesse recebido uma benção. Voltei a mergulhar no Bahia muitas outras vezes e ainda tive o prazer de levar pela primeira vez, alguns amigos mergulhadores para visitar este naufrágio, e sem surpresas, percebi neles a mesma sensação de encantamento que senti quando lá estive para conhecer aquela beleza submersa.
Mesmos hoje que o naufrágio é bem mais visitado e explorado por pescadores e caçadores submarinos, ainda apresenta toda imponência de um belo, grandioso e mágico ponto de mergulho, na minha opinião, o melhor de nossa região.
Considero o mergulho no Bahia um ritual de transcendência, uma submersão em suas águas me fazem encontrar uma paz tão grande, que chego a conseguir não pensar em nada, consigo me sentir parte daquele mundo, uma simbiose completa e regeneradora.
Recomendo a todos! O amigo Jorge ainda está lá, sem aquela vasta cabeleira, é verdade! Mas com a mesma simpatia, presteza e educação dignas de um guardião de um belo santuário submerso.
Aguas claras para todos e um abraço de aventureiro!
* A foto é de Ary Amarantes, clique na imagem acima para mais fotos do Naufrágio.
| Lula Moura Instrutor de mergulho, praticante de trekking e mountain bike. Trabalha com suporte pós venda de produtos de linha branca e refrigeração comercial. | |
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Camarada, um texto desse numa época dessa, chega a ser uma tortura… hahaha
Mas realmente o Vapor Bahia é uma categoria superior em relação aos mergulhos daqui…
Abraço…
Esse eu ainda não conheço
Alguém me deve uma ida ao Bahia
beijos
Beca
[...] Publicado por Lula Moura em 02 Jul 2008 | sob: Diversos Artigo postado inicialmente no Blog Azimute Aventuras [...]